segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A GRANDE BARATA
Por Zé da Cuia


Os escritos de Franz Kafka (1883-1924) desvelam estranheza, solidão e culpabilidade em seus personagens. Essas características se apresentam robustamente em uma de suas obras mais conhecidas “A Metamorfose”. O personagem Gregor Samsa depois de uma noite de sono intranquilo despertou convertido em um monstruoso inseto. Estava deitado de costas sobre uma dura carapaça e, ao alçar a cabeça, viu seu ventre convexo e escuro, sulcado por calosidades curvas, sobre o qual quase não se mantinha o cobertor que estava a ponto de escorregar até o chão. Numerosas patas, penosamente delgadas em comparação com a grossura normal de suas pernas, agitavam-se desordenadamente.

Esta obra de Kafka, apresenta uma forte tendência à crônica da vida social, como um roteiro de cunho social. “A Metamorfose” oferta o gênero literário e a temática social oscilando entre romance e conto, sem que se defina exatamente. (novela) e o tema (social). Contendo não muito mais que vinte mil palavras, “A Metamorfose” é muito mais do que um conto, mas não chega a constituir um romance. A onisciência narrativa sublima-se na presença do verbo de elocução “pensar”, nulidando uma suposta narração em terceira pessoa objetiva ou subjetiva. O discurso é inflexível, adota a forma direta e convencional, na dialógica do personagem, e o narrador esclarece a forma de comunicação, de como e por que falou, tem-se a sequencia: travessão, fala do personagem, travessão e verbo de elocução.

Gregor Samsa, é um representante comercial que presta seus serviços para uma empresa da cidade. Seus familiares irmã e pais são os personagens secundários. Nota-se a presença do gerente da empresa (um armazém), uma arrumadeira e três hospedes que tomam parte em “A Metamorfose”.

Há certa indefinição e puerilidade nos personagens deste evento. Kafka não lhes da dimensão exata nem se preocupa em descrevê-los em todas as suas características, básicas, elementares: físicas, intelectuais, psicológicas, morais e sociais. Afora o protagonista, os demais personagens não estão totalmente acabados. Gregor Samsa pode ser classificado como um personagem dito “pronto e acabado”, bem caracterizado. Quanto aos demais, somente por pura suposição pode-se chegar a uma caracterização mais completa. Sendo assim, os personagens secundários são caracterizados como “planos” (fazendo-nos lembrar a tábua rasa de Locke), com uma ou outra característica que não chega a dar uma visão mais completa.

O lugar em que se passa a história é a casa de Gregor Samsa. Seu quarto é o ambiente mais presente na narrativa, sendo nele que Gregor, depois de sua metamorfose, passa a maior parte do tempo. A época da ocorrência dos fatos não é especificada, não se sabendo em que espaço de tempo encontram-se os personagens. Devemos saber que num sentido lógico não poderia se encontroar num tempo além do autor, falecido em 1924.

“A Metamorfose” é de cunho social, mostrando, a despeito da terrível e desconcertante situação em que Gregor se envolvera, as dificuldades advindas dessa metamorfose. Dificuldades a que estaria acometida sua família, já que ele, até o momento da transformação, era o único que trabalhava, sustentando a família. Disso, depreende-se, num primeiro momento, que o assunto predominante seria “o indivíduo que um dia acordou de manhã e viu-se metamorfoseado em uma enorme barata”, porém, isso perde um pouco de força, e a ênfase é dirigida aos problemas oriundos de tal mudança e não mais à mudança em si mesma. Por um longo trecho da narrativa não se discute o porquê dessa metamorfose, ou se Gregor vai ou não voltar a ser um humano, ou ainda quanto tempo duraria sua vida enquanto inseto.

A mensagem que pode ser extraída dessa narrativa é notada somente se o leitor desviar sua atenção do estado em que se encontra Gregor Samsa. Deixando de lado o fato de que ele foi transformado em um inseto gigante, torna-se mais fácil perceber o que Kafka quis transmitir com sua narrativa. Vejamos, até o dia da metamorfose de Gregor, tão-somente ele trabalhava, arcando com todas as despesas da casa, e, ainda, tendo prometido à sua irmã enviá-la para estudar em um conservatório. Depois da transformação, tudo mudou. O pai, já velho, voltou a trabalhar. A mãe passou a costurar. A irmã também, com seus dezessete anos de idade, teve de arranjar um emprego. Até mesmo a casa dos Samsa não foi poupada, sendo transformada numa espécie de hospedaria, daí o surgimento, na narrativa, de três hóspedes como personagens “sub-secundários”. A mensagem seria, à primeira vista, o fato de que foi necessária a ocorrência de uma verdadeira desgraça na vida dos Samsa para que todos se mexessem.

Quanto ao tempo da narrativa, este é cronológico, os fatos vão sendo descritos e narrados à medida que eles vão ocorrendo. A contagem do tempo é feita em horas, dias, semanas e em meses, porém, sem mencionar uma data precisa.

O enredo é que necessita de uma atenção mais especialmente elaborada, ainda mais em se tratando de Kafka. Enredo, vale lembrar, é o conjunto dos fatos de uma história. São dois os elementos que devem ser levados em conta no enredo da maioria das narrativas (tradicionais). São eles: verossimilhança e estrutura. O que torna um enredo apresentável e verdadeiro para o leitor é a lógica na qual ele se assenta. Mesmo sendo pura invenção do escritor, os fatos descritos devem possuir certa carga de credibilidade. Cada fato deve possuir um motivo para ter acontecido. Nada ocorre de graça, e um fato acaba gerando outro, deve existir o “nexo causal”. Em suma, deve haver verossimilhança no enredo porque do contrário ele conteria falhas que não convenceriam o leitor. No que se referem à estrutura do enredo, as narrativas tradicionais devem conter início, meio e fim. É o que Aristóteles chamou de “energeia” (a atualização da potencialidade que existe no personagem e na situação). O romancista ou novelista deve mostrar os fatos passo a passo. Há narrativas que não possuem começo, embora tenham meio e fim, enquanto que em outras ocorre exatamente o contrário, possuindo começo, meio e ausência de fim.

Kafka iniciou sua obra com a seguinte oração: “Uma manhã, depois de um sono intranquilo, Gregor Samsa despertou convertido em um monstruoso inseto”. Ora, a teoria de Aristóteles, a qual se denomina “plano inclinado”, foi posta de lado. O plano inclinado idealizado por Aristóteles pode ser entendido como uma linha que se move da esquerda para a direita através de três inconfundíveis atos, rumo a um clímax, e culminado com um desenlace ou desfecho, o qual pode estar no último parágrafo, ou até mesmo na última frase. Em “A Metamorfose”, quem pode saber o “como” e o “por que” de semelhante transformação. Kafka não o mostra, pois não é isso que importa em sua novela.

Ocorre que Kafka foi expressionista ao escrever “A Metamorfose”, trabalhando, inicialmente, não com situações realistas exteriores, mas sim, iniciando sua narrativa com uma situação expressionista interior, com um estado psicológico que ele transformou, elevando-o ao máximo. Daí resultou a metamorfose de Gregor Samsa, sem qualquer explicação.

A teoria aristotélica (de início, meio e fim) pode ser desdobrada em partes: exposição (introdução ou apresentação), complicação (desenvolvimento, contendo um ou mais conflitos), clímax e desfecho (desenlace ou conclusão). Inúmeros escritores seguem à risca essa sequência. Franz Kafka não seguiu essa “norma” em “A Metamorfose”, fato comprovado com a leitura do primeiro parágrafo. O leitor, que estiver acostumado com romances tradicionais, irá, sem dúvida, estranhar a forma como Kafka inicia sua narrativa, pois irá receber de supetão, uma informação que vai além da imaginação, sem qualquer explicação anterior, ou, em linguagem mais vulgar, sem “preparo de terreno”.

“A Metamorfose” começa já na fase da complicação, saltando a exposição dos fatos. Aliás, podem-se perceber dois momentos em que a história apresenta conflito (complicação). O primeiro conflito é o que já foi mencionado, o momento em que o personagem acorda e percebe que foi transformado num inseto. O segundo conflito surge quando o inseto, é visto pela primeira vez por seus familiares. Aí surge a expectativa acerca da reação que eles terão frente à nova aparência de Gregor Samsa. O clímax ocorre na parte da narrativa em que a irmã de Gregor, Grete Samsa, aconselha seus pais a livrarem-se do enorme inseto, pois já haviam tentado de tudo para ajudá-lo (suportá-lo seria mais conveniente dizer). A partir desse episódio, o leitor poderá encontrar-se na expectativa de um desfecho surpreendente, esperando algo realmente extraordinário. Algo como uma explicação lógica para a transformação de Gregor, ou mesmo seu retorno ao estado normal. O surpreendente é que isso não ocorre. Gregor Samsa não apenas continua sua sina como um repugnante inseto, como acaba morrendo nessa situação. A morte de Gregor, ainda metamorfoseado em inseto, de fome ou de desgosto, ocorre nas últimas páginas, não havendo explicação alguma acerca de como ele havia chegado à condição de um inseto. Enfim, sua família, sem a existência da criatura, fez o que jamais tinha feito antes. Sem mais problemas, cada qual tendo seu emprego (bons empregos, concluíram), saíram pai, mãe e filha, todos juntos para passear de trem (ou de ônibus, depende de quem traduz). A partir daí, o leitor comum não descobrirá nada mais de relevante, porém, uma mirada mais acurada no último parágrafo mostrará algo que merece reflexão, e talvez aí esteja implícita a mensagem maior que Kafka teve a intenção de mostrar.

“Enquanto falavam, o senhor e a senhora Samsa deram-se conta, quase ao mesmo tempo, de que sua filha, apesar de todas as preocupações que a fizeram perder a cor nos últimos tempos, havia crescido e se convertido numa linda jovem cheia de vida. Sem palavras, entendendo-se com o olhar, disseram-se um ao outro que já era hora de encontrar um bom marido para ela. E quando, ao chegar ao final do trajeto, a filha levantou-se antes deles e ergueu suas formas juvenis, pareceu corroborar com os novos projetos e as sãs intenções dos pais.”

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Hermenêutica do Surreal

Por Zé da Cuia


Partindo da modernidade a cienciologia revela um grande número de correntes de pensamento, nalguns aspectos tão contraditórias quanto diversas. Esta diversidade fomenta o debate no último século, sobre paradigmas em pesquisas desenvolvidas, inicialmente, a partir do conceito de paradigma como “resolução de quebra-cabeças” de Kuhn (1962 apud MORGAN, 1980), dentro das ciências em geral. Segundo Morgan, Paradigma é conceituado como uma rede de escolas de pensamento inter-relacionadas, diferenciadas na abordagem e perspectiva, mas que compartilham pressupostos fundamentais sobre a natureza da realidade de que tratam. “São diferentes visões da realidade social”. Já para Lewis e Grimes (2005, p. 45) “são premissas, práticas e concordâncias de uma comunidade acadêmica”.


Nos paradigmas, estabelecidos por Morgan revelam-se diversos métodos que se aproximam, pela visão de mundo (sociologia da mudança radical x sociologia da regulação), ou pela dimensão mais subjetiva ou mais objetiva da realidade. Os paradigmas denominados estruturalista radical e humanista radical são ambos regulados pela sociologia da mudança radical, mas diferem no foco, pois o primeiro é mais objetivo enquanto o segundo é mais subjetivo. Já os paradigmas funcionalista e interpretativista são regulados pela sociologia da regulação, pela manutenção do status quo. No entanto, diferenciam-se no sentido do primeiro ser mais objetivo (assim como o estruturalista radical) e o segundo ser mais subjetivista (assim como o humanista radical).


No paradigma humanista radical, podem-se encontrar métodos científicos como a Psicanálise Clínica (FREUD, JUNG, LACAN), a Psicanálise Histórica e a Psicanálise Aplicada, a Escola de Frankfurt, a Teoria Crítica (MARX E LUKÁCS), a Linguagem da Vida Organizacional (CLEGG), entre outras. Alguns destes métodos centram seu interesse em patologias da consciência pelas quais os indivíduos se aprisionam dentro de fronteiras da realidade que eles mesmos criam e sustentam. Já a Psicanálise Clínica tem como foco o inconsciente, no entanto, para Freud “só o conhecemos como algo consciente, depois que ele sofreu transformação ou tradução para algo consciente. A cada dia, o trabalho psicanalítico nos mostra que esse tipo de tradução é possível”. Esta “tradução”, ou “transposição” pressupõe um novo texto, linguagem.


No paradigma interpretativista, encontram-se métodos como: o Interacionismo Simbólico, a Fenomenologia, a Etnometodologia, a Etnografia, o Pós-modernismo e a Hermenêutica. Neste paradigma, a Ciência é concebida como uma rede de jogos de linguagem, baseados em conceitos e regras subjetivamente determinados. A linguagem é um modo de estar no mundo. Neste sentido, pensar uma pesquisa científica que sobreponha e entrelace dois métodos que, a princípio, sejam regulados por perspectivas de mundo diferentes, apesar da coincidência na ênfase da subjetividade, pode parecer problemático e a pesquisa corre o risco de perder sua validade e fidedignidade. No entanto, uma questão é comum tanto na psicanálise, quanto na hermenêutica: a interpretação, a qual não pode ser pensada de forma dissociada da linguagem: Quais as complementaridades e disparidades entre a interpretação na psicanálise e na hermenêutica? Assim, estabelece-se como objetivo deste artigo: sobrepor e entrelaçar a psicanálise e a hermenêutica com o intuito de revelar suas disparidades e complementaridades no que tange a interpretação.


Para tanto, buscou-se fundamentos teóricos sobre os diferentes paradigmas em Morgan (1980); sobre a interpretação em psicanálise em Freud (1986), Lacan (1998), Puglia (1999), Aguiar (2002), Safra (2003); e sobre o método da hermenêutica em Schleiermacher (2006), Gadamer (1997), Carvalho e Grun (2005), entre outros. Assim como, Ricoeur (1986) e Gouvêa (1993) também foram a base para questões relacionadas à interface da hermenêutica e psicanálise.


Hermenêutica: formas de interpretação


A hermenêutica, ciência ou a arte da interpretação, teve sua formação histórica iniciada com os gregos, que buscavam através dela compreender seus poetas. A hermenêutica é tão antiga quanto a filosofia, e tem sua origem explicada na mitologia grega. Hermes, o deus com asas no chapéu e nas sandálias, é o mensageiro de Júpiter (seu pai) e com destreza e habilidade levava os significados a quem era enviado. O desenvolvimento hermenêutico se dá na tradição judaico-cristã, como forma de interpretar a “verdade” dos textos bíblicos.
Com o Renascimento, têm-se três tipos básicos de técnica de interpretação: “hermenêutica teológica (sacra), filosófico-filológica (profana) e jurídica (juris)”. Schleiermacher, em seus estudos de hermenêutica, segue tanto a tradição exegética da teologia protestante, como a filologia clássica do final do século XVIII, nos quais se encontram o antigo ideal exegético de reconstituição do sentido original de um texto. Schleiermacher foi o primeiro a desenvolver a concepção de círculo hermenêutico. Sua compreensão se dá sempre de uma forma circular, oscilando numa relação recíproca entre o singular e o todo do qual esse singular faz parte. Schleiermacher desenvolveu essa estrutura entre o todo e as partes no âmbito da interpretação de textos.


A partir de uma exigência filosófica, ocorre uma reorientação desse ideal, agora com foco na análise das condições gerais sob as quais a compreensão ocorre e no fornecimento das razões do processo de interpretação. Em meados do século XIX, esse conceito foi associado à justificação metodológica das ciências humanas. Dessa forma, como base das ciências histórico-filológicas, a hermenêutica de Schleiermacher é apontada por Dilthey “como fundamento geral das ciências humanas ou ciências do espírito, contra a pretensão hegemônica da metodologia positivista das ciências naturais experimentais”.


Dilthey alarga o campo da hermenêutica para todo o domínio da compreensão histórica ou das ciências humanas, por meio da compreensão do particular a partir do todo, e deste a partir do particular. “Para Dilthey é necessário entender um texto a partir dele mesmo. Isso designa compreendê-lo objetivamente, uma vez que ele é a manifestação individual de um contexto mais amplo”. Em outras palavras, para ele, os sentidos de um texto estão inseridos nele, não importando a intencionalidade do autor, nem o conhecimento prévio do interpretador. Desta forma, a linguagem é reduzida à unidade mínima que é o significado da palavra na frase.


Gadamer explica que o fracasso de Dilthey se deve, justamente, à característica da objetividade pretendida por ele na concepção metodológica do processo de interpretação. Braida (1995, apud SCHLEIERMACHER, 2006, p. 9) defende, ainda, que esse modelo de apreensão do sentido, como essência do método das ciências humanas, vai questionar o próprio conceito de objetividade científica, visto que na compreensão hermenêutica, tem-se: a inserção do pesquisador (no entendimento da história e da linguagem); o resultado da compreensão (que seria a própria ciência); a mútua dependência constitutiva entre a parte e o todo (e não a compreensão por mera indução); e também a referência a um ponto de vista.


Estabelece-se, assim, um divisor de águas entre as ciências humanas (concepção compreensiva, que visa apreender as significações intencionais das atividades históricas concretas do homem) e as ciências naturais (concepção explicativa, quantitativa e indutiva, que procura determinar as condições casuais de um fenômeno a partir da observação e da quantificação). Entre as concepções compreensivas estão a sociologia de Weber, a psicanálise de Freud, a metodologia empírico-qualitativa na historiografia, entre outras.


Posteriormente, Gadamer, no seu livro Verdade e Método, faz uma virada hermenêutica nova e definitiva: Ele critica a forma de interpretação opaca como princípio, e insere a interpretação do texto no contexto com características do acontecer da tradição na história do ser. A prática da interpretação ganha um caráter existencial, pois a presença do interpretador no processo passa a ter importância, como Gadamer enfatiza, “tem seu sentido afirmar que o intérprete não aborda o 'texto' a partir de sua inserção no preconceito prévio; e sim, que põe expressamente à prova o preconceito no qual está instalado, põe à prova sua origem e validez”.


O leitor, interpretador de um texto quando vai ao texto antecipa possíveis sentidos do conjunto, e, na medida em que confronta suas (pre)visões com o que encontra, faz constantes revisões que acabam por aprofundar o sentido do que está em questão. Esse conhecimento prévio do interpretador, como qual ele elabora um projeto de interpretação, denominado por Gadamer como “antecipação de completude”.


Partindo para uma ação investigativa considerando hipóteses diversas evocando Paul Ricoeur, a interpretação como restauração e confiança no sentido opõe-se, desde Nietzsche e Freud, a ideia de interpretação concebida como desmistificação e redução de ilusões do passado. Nos vemos impactados pela ideia crítica na cultura e filosofia ocidentais, e, obrigados, a repensar o sentido da própria Hermenêutica, uma vez que com Nietzsche, Freud e Marx a atitude de crítica e suspeita contra a Filosofia e cultura tradicionais, baseadas na inocência do Cogito, aparece ligada à temática da interpretação-dissolução das grandes ilusões da consciência humana. Pela primeira vez, o conceito de interpretação surge ligado a uma atitude de suspeita relativamente à linguagem falada pelos homens e falada aos homens. É fundamentalmente desconstrução. Remete para uma problemática nova que já nada tem a ver com o tradicional problema do mal-entendido ou mesmo com o do erro concebido em sentido epistemológico nem tão pouco com a problemática da mentira em sentido moral, mas sim com a temática da ilusão, do desvio e do desmascararamento como modo de ser do existir humano.


O conceito de interpretação alcança assim toda uma nova extensão. O seu novo núcleo é a relação consciência-ilusão. Assim sendo, o objeto da interpretação já não é apenas uma escrita ou texto que se oferece à compreensão mas todo o conjunto de signos capazes de serem considerados como um texto a decifrar pelo seu duplo sentido, sejam eles constituídos por um sonho, um sistema nevrótico, um rito, um mito, uma obra de arte ou pela própria crença. A ideia de texto aparece agora liberta da ideia de escrita. Freud, nomeadamente, fala da narrativa do sonho como de um texto inteligível ao qual a interpretação substitui um outro mais inteligível. Também para Nietzsche a interpretação não tem já que não ver com a intencionalidade da linguagem mas sim com a tarefa de uma destruição de todos os ídolos da consciência falsa.


Depois de Freud, Nietzsche e Marx instala-se no Ocidente a dúvida quanto à consciência. Suspeita-se radicalmente da ideia tradicional segundo a qual o sentido e a consciência do sentido podem coincidir. Procurar o sentido não é já soletrar a consciência do sentido mas, implica, pelo contrário, todo um desfazer das cifras com que a consciência - agora uma instância epidérmica e derivada - tem envolvido a realidade. Para os três, a própria consciência não é o que acredita ser. Subjaz-lhe algo latente - o psiquismo inconsciente, a vontade de poder, o ser social - que deve ser decifrado e revelado por detrás de todas as manhas do sentido consciente.Uma nova relação entre o que é patente e o que está latente estrutura agora a consciência e todo o conjunto das suas manifestações simbólicas. A dimensão manifesta do sentido simula sempre algo de mais profundo que deve ser interpretado justamente a partir das suas traças ou expressões. A genealogia da moral no sentido de Nietzsche , a teoria marxista das ideologias e a teoria freudiana dos ideais e ilusões são “três processos convergentes de desmistificação “que criam” com e contra os preconceitos da época uma ciência mediata do sentido irredutível à consciência imediata deste. A suspeita quanto às ilusões da consciência é agora o motor verdadeiro de toda a interpretação, que não pode já entender-se como uma recolecção do sentido. Pelo contrário, face à ilusão, à função efabuladora da consciência, a hermenêutica desmistificadora exige a rude disciplina da necessidade. Contesta-se radicalmente a expectativa ou confiança no núcleo poético da linguagem própria da hermenêutica que acredita na dimensão intencional dos símbolos. À interpretação cabe apenas arrancar as máscaras e disfarces para chegar a um originário não linguístico nem poiético e já não desimplicar o sentido e o objeto referidos.


A Hermenêutica aparece assim como uma questão que não é pacífica. Muito pelo contrário é percorrida por linhas divergentes e até rivais. Segundo Ricoeur, é este um dos principais méritos da hermenêutica da suspeita: fazer-nos tomar consciência que não existe uma hermenêutica universal; que não existe um canône universal para a interpretação, apenas linhas divergentes e até opostas. E que esta tensão é a própria condição da interpretação, a expressão mais verídica da nossa Modernidade . Oscilamos hoje entre a vontade de escuta e a vontade de suspeita, entre o voto de rigor e o voto de obediência. Talvez o iconoclasmo mais extremo pertença à restauração do sentido. A Hermenêutica da suspeita rasga assim todo um novo horizonte para o próprio problema hermenêutico da confiança: o de uma confiança já não ingénua mas fundamentalmente pós-crítica. Para Ricoeur ela é valiosa pelo seu voto de rigor, pela noção de símbolo que pressupõe e pelo modo como obriga a Hermenêutica a integrar a temática do conflito das interpretações. Deve, portanto, ser reintegrada pela atituda hermenêutica da confiança, pois enquanto atitude de pura suspeita é nihilista, coisa que o não eram nem Freud, nem Nietzsche nem Marx.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Caiu o Último Faraó
Por Zé da Cuia


As manifestações em franco desenvolvimento na África e no Oriente Médio, dão a medida exata da eficiência da comunicação instantânea. Eis as “Revoluções pela Internet”, como se refere ao evento a revista Istoé.

As escaramuças provocadas pelos manifestantes e o governo do Egito, desde o início do ano, ocasionaram a renúncia do presidente Hosni Mubarak no dia 11 último, após uma considerável baixa de mais de 300 mortos.

O levante teve início na Tunísia, quando um vendedor ambulante ateou fogo ao próprio corpo, em protesto contra a truculência da força policial. As redes sociais, e os telefones móveis - foram os principais instrumentos utilizados para reunir os manifestantes tunisianos e, culminou na renúncia do presidente Zine El-Abidine Ben Ali, que fugiu para o exílio após surrupiar o erário. Num efeito dominó, os “anseios da rua árabe” se alastraram ao Marrocos, Mauritânia, Iêmen, Omã, Egito, Sudão, Líbia, Jordânia, Argélia e Bahrein, com reflexos até na Tailândia, no Irã e na Arábia Saudita. O governo chinês tratou de apagar a palavra “Egito” nas pesquisas do Google. A Organização das Nações Unidas, aponta e existência de 2 bilhões de internautas e 5,3 bilhões de celulares no mundo.

Segundo a revista Época tal movimento popular se trata de “O grito árabe pela democracia”. Dos 22 países que compõem a Liga Árabe, apenas o Líbano tem um governo considerado democrático, além do laboratório americano denominado Iraque, que ainda é uma incógnita. Pode até ser um grito pela democracia, embora seja uma democracia diferente da que conhecemos no Ocidente. O verdadeiro grito dessas massas é contra o desemprego, a miséria endêmica e a corrupção generalizada de governantes que vivem no luxo extremo, com contas secretas no exterior, e com o apoio de um sistema policialesco só visto em ditaduras. A gota d’água no Egito foi a intenção de Mubarak fazer seu sucessor o filho Gamal Mubarak, numa espécie de dinastia existente na Coréia do Norte e em Cuba.

O principal local das manifestações egípcias foi a Praça Tahrir, um nome bem sugestivo, pois significa “Libertação”, onde também ficam o Museu Egípcio e o temido Ministério do Interior. Entre Tahrir e a torre da TV estatal fica a embaixada do Brasil, de onde, provavelmente, tivemos as primeiras imagens vistas no Brasil, restritas a um trecho da avenida Corniche El-Nil e ao local de atracação das barcas, nas margens do Nilo.

Os protestos iniciais, de 25 de janeiro, foram convocados no Facebook, pela página Somos Tudo o Que Khaled Disse, uma referência ao jovem Khaled Said, espancado até a morte por policiais em Alexandria, em junho de 2010. Outro grupo, também nascido no Facebook, em 2008, é o Movimento Jovem 6 de Abril, com origem na cidade fabril de Mahalla.

A reação do regime foi convocar partidários, que utilizaram cavalos e camelos para fustigar os manifestantes, além de atirar pedras e destroços do alto dos prédios. Esse ataque da “camelaria ligeira” foi o último ato que tentou salvar o faraó e irá passar à história como um fato burlesco do tipo “brancaleone”.

O Egito, com cerca de 85 milhões de habitantes, é um país superpopuloso. Quase a totalidade dessa população habita os 4% de suas terras férteis – o Vale do Nilo e o Delta.

O país importa 2/3 dos alimentos. Do Brasil importa, principalmente, carne bovina, frango e açúcar. Com um PIB de 180 milhões de dólares, as principais fontes de divisas fortes são obtidas pela cobrança de taxas dos navios que navegam pelo Canal de Suez, pelo turismo e pela exportação de petróleo e gás, em pequena quantidade.

O governo Hosni Mubarak era uma ditadura de fato sob uma roupagem democrática. O Egito é uma república presidencialista desde 1953. O Parlamento egípcio, unicameral, com 454 deputados, é chamado de Assembléia do Povo, uma denominação de origem socialista. De acordo com a Constituição de 1971, a cada 6 anos um candidato a presidente é apontado por pelo menos 1/3 dos deputados. Esse nome deve ser confirmado por pelo menos 2/3 dos parlamentares. Só um nome é apontado para ser escolhido em plebiscito pelo povo. Como o Partido Nacional Democrático, ao qual Mubarak pertencia, é o mais forte do país, este passou a ser indicado a presidente indefinidamente, desde a morte de Anwar Sadat, ocorrida em 1981. Com uma Lei de Emergência imposta ao Egito desde a morte de Sadat, Mubarak tinha amplos poderes sobre o país e as Forças Armadas, podendo dissolver o Parlamento quando quisesse. Tinha também direito de indicar 10 membros do Parlamento e nomear os dirigentes das governadorias (províncias) do Egito, compostos principalmente por militares de altas patentes. Mubarak era, de fato, um faraó, um Ramsés dos tempos modernos.

O Egito milenar, berço de nossa civilização junto com a Grécia, após as dinastias faraônicas foi dominado por diversos povos: persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, franceses, ingleses e turcos otomanos. Com a Revolução de 1952, promovida pelo Movimento dos Oficiais Livres, o Rei Farouk foi obrigado a abdicar em nome de seu filho, Fuad. Em 1953, foi proclamada a República, presidida pelo general Muhammad Naguib. Em 1954, o coronel Gamal Abdel Nasser obriga Naguib a renunciar e assume o governo. Em 1956, depois da retirada das tropas britânicas do país, Nasser nacionalizou o Canal de Suez, ocasionando uma guerra contra Israel, que invadiu a Faixa de Gaza e o Sinai. Para implementar a paz, foram enviadas as Forças de Emergência das Nações Unidas (UNEF) na região, com participação de boinas azuis brasileiros, que chegaram em Port Said em 1957. Em 1958, o Egito, a Síria e o Iêmen formam a República Árabe Unida, que teve vida efêmera. O Egito viria a sofrer outra derrota humilhante, em 1967, na chamada Guerra dos Seis Dias, quando Israel novamente tomou a Faixa de Gaza e o Sinai, além das Colinas de Golã, na Síria. Nasser, apesar das derrotas militares, foi o maior líder do Egito moderno. Até hoje é considerado um mito naquele país.

Em 1970, assume a presidência Anwar El-Sadat. Ao contrário de Nasser, que havia nacionalizado quase toda a produção egípcia, sob influência soviética, Sadat começa a introduzir no Egito a abertura econômica, e começa a aproximação com o Ocidente, principalmente com os EUA. Em 1972, Sadat expulsa do país cerca de 20 mil “conselheiros” soviéticos. Vale lembrar que a represa de Assuã foi construída por Moscou.

O Egito e a Síria, com apoio dos países árabes, atacaram Israel no dia 6 de outubro de 1973, iniciando a Guerra do Ramadã, como é conhecida entre os egípcios, ou Guerra do Yom Kippur (Dia do Perdão), como é conhecida em Israel e no Ocidente. Essa guerra levantou a moral de todo o povo egípcio, devido às vitórias iniciais que quase varreram Israel do mapa. Hoje, no Egito, 6 de outubro é feriado nacional e nome de importante ponte sobre o Nilo no Cairo. Existe também a Cidade Seis de Outubro, criada em pleno deserto, ao sul do Cairo, onde existem vários complexos industriais para desafogar o Grande Cairo. As guerras contra Israel tornaram o Egito pobre e o êxodo rural aumentou espantosamente, inchando o Cairo, com protestos da população frente à carestia, gerando prisões em massa, em 1977. Desde então, as massas ficaram caladas, voltando às ruas somente no início deste ano.

Em 1979, Sadat assinou um Acordo de Paz com Israel, que redundou na devolução do Sinai, só efetivado em 1982. A Faixa de Gaza foi rejeitada pelo Egito, ficando esse pequeno território, altamente povoado e explosivo, sob administração israelense. Esse acordo, aliado à política econômica de Sadat, além de ter abrigado no país o deposto Xá do Irã, revoltou ainda mais os extremistas egípcios. Na parada militar de 6 de outubro de 1981, Sadat foi morto por um membro da Jihad Islâmica do Egito (do qual fazia parte o atual número 2 da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri), sob os gritos eufóricos: “Eu matei o faraó!” Além do Egito, só a Jordânia mantém um acordo de paz com Israel no mundo árabe.

Assume então a presidência o vice de Sadat, o marechal Hosni Mubarak, herói da Guerra do Ramadã, quando era comandante da Força Aérea. Ele procurou manter a linha político-econômica de Sadat e se tornou importante aliado dos EUA, que ainda remetem, a fundo perdido, cerca de US$ 1,5 bilhão por ano a este que é considerado o maior ativo estratégico da região. Um exemplo desse alinhamento com os americanos observou-se na Guerra do Golfo, em 1991, quando o Egito integrou as forças aliadas contra Saddam Hussein, que tinha invadido o Kuwait.

A rejeição contra Mubarak, nas últimas décadas, era maior por parte dos fundamentalistas islâmicos, como a Irmandade Muçulmana, que promoveram atentados às autoridades egípcias, aos cristãos coptas e, desde 1992, a turistas estrangeiros, como o observado no templo da rainha Hatshepsut, em Deir al Bahri, no Alto Egito, quando, em 1997, mais de 60 turistas foram metralhados pelo Grupo Islâmico. Outro ataque violento, reivindicado pela Al-Qaeda, com 88 mortos, foi contra um hotel de luxo no paradisíaco balneário de Sharm E-Sheikh, em 2006, no sul do Sinai, no Mar Vermelho, para onde Mubarak se refugiou após a renúncia. Durante seu governo, Mubarak sofreu uma dezena de atentados, incluindo um no exterior, em Adis-Abeba, em 1995. Com mão de ferro, Mubarak conseguiu neutralizar os ataques terroristas, enforcando muitos radicais islâmicos. No Egito, essa é a modalidade de pena de morte, normalmente aplicada a homicidas, traficantes de drogas e estupradores. Nessa empreitada repressiva, Mubarak teve a ajuda inestimável do chefe da temível Mukhabarat (camisa escura), o serviço secreto chefiado por Omar Suleiman, nomeado vice-presidente no início dos protestos egípcios.
Mubarak não conseguiu diminuir a pobreza no país, onde, diz-se, 50% da população vive com o equivalente a 2 dólares dia, nem conseguiu criar empregos para a massa humana que cresce 2 milhões a cada ano, deixando milhares de jovens sem perspectiva de melhoria de vida. A inflação e a taxa de desemprego são muito superiores aos índices oficiais, alardeados como 11% e 9%, respectivamente – uma manipulação comum em regimes autoritários. É um caldo extremamente favorável aos extremistas, como a Irmandade Muçulmana, que presta assistência social nos moldes do Hamas em Gaza, do Hezbollah no Líbano e da Al-Qaeda na Bósnia e no Afeganistão. Assim, compreende-se a apreensão do mundo democrático frente à possibilidade do Egito cair nas mãos dos clérigos sunitas, que têm por objetivo transformar o país numa teocracia regida estritamente pela Sharia, a exemplo do Irã e do Sudão.

Mubarak quase consegue realizar a proeza de um Ramsés II, que governou o Egito por ainda mais décadas. Só faltou o novo faraó morrer e ser mumificado. Porém, o povo egípcio se cansou do regime, que desde o início da República impôs 4 presidentes militares. Ocorre que os tempos são outros, não existem mais guerras contra Israel, nem ataques terroristas sendo perpetrados no país, apenas a guerra diária pela comida e por uma dignidade humana elementar.

Engana-se quem pensa que o Egito irá se tornar uma democracia. Isto não existe em nenhum país islâmico, a rigor nem mesmo no Líbano, um país que se tornou dividido e violento depois da guerra civil, onde uma milícia externa, o Hezbollah, com apoio da Síria e do Irã, tem grande representação parlamentar. Para haver democracia em um país, é necessário que haja ampla liberdade de opinião e respeito às diferenças étnicas, sociais e religiosas. O islamismo não prega o diálogo, mas o confronto. Não aceita a liberdade de culto religioso, porém tenta impor seu credo, eliminando os não-crentes. Prova disso são a emigração forçada de cerca de 25.000 judeus egípcios após a guerra de 1956 contra Israel, quando tiveram todos os bens confiscados, e os constantes ataques aos cristãos coptas, que têm suas lojas e suas igrejas incendiadas constantemente.

Provas da intolerância islâmica são os movimentos separatistas existentes na Chechênia, no Kosovo, no Sudão, na Cachemira. Os muçulmanos não se aculturam, porém sempre procuram impor sua cultura à força nos países para onde emigram. Por qualquer motivo, fazem levantes na França, onde já somam mais de 10 milhões de pessoas, com incitação à desordem promovida pelos sheiks nas mesquitas, incendiando prédios e carros, embora tenham ampla rede de amparo social naquele país, principalmente educação e saúde. Cospem no prato em que comem. Eles não irão sossegar até o dia em que consigam transformar a Europa na Eurábia, pois não têm receio de portar placas, em suas passeatas, com os dizeres “um dia, o mundo inteiro será islâmico” nos países que os acolheram, como a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Bélgica e a França, principalmente.

Antigamente, o Catolicismo tinha um objetivo universal, de evangelizar todos os povos, muitas vezes à força. No século passado, esse objetivo foi perseguido pelo Movimento Comunista Internacional, que pretendeu socializar todos os meios de produção e escravizar todos os povos em nome do Leviatã estatal. Hoje é o Islamismo que tem esse objetivo estratégico, de criar um califado mundial, subjugando todos os povos aos preceitos de Alá. Um clérigo islamita falar em paz e cooperação com outras religiões é o mesmo que um petista falar em estado democrático de direito. É pura enganação.

John Laffin, no livro The Arab Mind, afirma: "A lei islâmica não reconhece a possibilidade de paz com descrentes e infiéis. A parte do mundo não-muçulmano é conhecida na teologia islâmica como território de guerra. A maior parte dos militantes muçulmanos acredita que a tarefa de Maomé não será bem-sucedida enquanto não-mu-çulmanos tiverem controle de qualquer parte do planeta". “território de guerra” é “território a ser conquistado”.

Mubarak foi um herói nacional, tinha inicialmente um grande respeito da população. Porém, aproveitou-se disso para se perpetuar no poder, como verdadeiro ditador, tornando-se onipresente, com fotos em inúmeros outdoors, com apoio da máquina de triturar carne humana chamada Mukhabarat, livrando as Forças Armadas desse trabalho sujo. Por isso, o exército do Egito tem, ainda, uma força moral bastante elevada, necessária para comandar a transição para um novo governo.

Se Mubarak, ao renunciar, não passou ou não conseguiu passar a presidência a seu substituto constitucional, o fato é que houve simplesmente mais um golpe militar e ponto. O Conselho Supremo das Forças Armadas, presidido pelo antigo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi - o preferido de Washington, aboliu a Constituição, dissolveu o Parlamento, prometeu realizar eleições dentro de seis meses e retirou à força os últimos manifestantes da Praça Tahrir. Não aboliu a Lei de Emergência e vai governar mediante decretos. Com isso, as Forças Armadas se tornaram ainda mais poderosas no Egito, onde o Exército controla 30% do PIB.

O que vem pela frente é uma verdadeira esfinge egípcia a ser decifrada, já que o “democrata” Nobel da Paz que caiu de paraquedas na Praça Tahrir e se apresenta como o salvador da pátria, Mohamed El-Baradei, tem o apoio da Irmandade Muçulmana.

sábado, 4 de dezembro de 2010

I Encontro TIMBRE FILOSÓFICO


A Academia Acreana de Filosofia convida a todos os amigos da sabedoria a participarem do I Encontro TIMBRE FILOSÓFICO.

O I Encontro TIMBRE FILOSÓFICO se dará em três momentos, e contará com a presença do Professor da PUC/PR DR. Bortolo Valle.

DATA/HORA: 09/12/2010 - 09:30h
LOCAL: Auditório da FADISI
TEMA: Filosofia da Mente

DATA/HORA: 10/12/2010 - 18:00h
LOCAL: Biblioteca da Floresta
TEMA: A Crise Epistemológica no Século XXI

DATA/HORA: 11/12/2010 - 09:00h
LOCAL: Anfiteatro Garibaldi Brasil (UFAC)
TEMA: A Filosofia no Século XXI

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

SESSÃO SOLENE

I SESSÃO SOLENE

A nossa primeira sessão solene teve o objetivo de comemorar o dia do filósofo, homenagear pessoas que promovem a filosofia, e instituir o dia do filósofo e da filosofia no Acre.

Foram homenageados “in memoriam” os Professores José Mastrangelo e Raimundo Macedo, os Acadêmicos José Sales de Contreras e Ana Eunice Moreira Lima, e o Bispo Dom Giocondo Maria Grotti.

Receberam Diplomas de Honra ao Mérito, os Professores Francisco Assis Ferreira dos Santos, Guilherme da Silva Cunha, João Azevedo do Nascimento, Manoel Coracy Saboia Dias, Maria Ivanilda Souza da Silva, Nilo Zannini, e o Bispo Dom Joaquím Pertiñez Fernández.

A solenidade se deu em dois momentos: tendo início no dia 14 e término no dia 23 de agosto de 2010.


ALGUNS PRONUNCIAMENTOS:


Pronunciamento de Maria Lair em 14 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Boa noite a todos...
Cumprimento-os na pessoa do Glicério Gomes, Presidente da Academia Acreana de Filosofia.

Eu não poderia falar pela minha turma, nem para a minha turma, muito menos falar de Ana Eunice Moreira Lima, sem antes citar um fragmento do poema Bons Amigos, de Machado de Assis: “Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende. Amigo a gente sente!”

Éramos de uma recém iniciada turma do curso de filosofia da Faculdade SINAL. Mesmo de encontro recente já formávamos uma turma coesa, de muita afinidade. Durante as aulas na interlocução com os mestres, e nas atividades de campo como as reuniões de trabalho em grupo pude notar que alguém se destacava. Eu jamais poderia imaginar e aceitar que a passagem daquela pessoa pudesse ser tão rápida e sua permanência tão curta e marcante em nosso meio.

Lembrar hoje em dia, e especialmente nesse momento é ponderável acalentamento apenas por saber mesmo sem querer aceitar que temos poucas coisas boas e pessoas a serem lembradas.

Ana Eunice; filha, irmã, esposa, amiga, mãe... Vivia feliz ao lado do companheiro Tião e dos filhos Stênio e João, mesmo em uma sociedade que não tem como prioridade plena a vida humana. Ana (do hebraico: a cheia de graça ou a bem feitora) trabalhava, estudava e sonhava. Sonhava com um mundo melhor talvez. Talvez sonhasse com um mundo melhor para as outras pessoas.

Passou um tempo que é uma vida, a vida de Ana, despedida não se deu e a partida não se deu por inteiro. Notável foi sua presença. Notada e sentida é a sua ausência.

Ficaram belas recordações de bonitas ocasiões, e essas recordações ficam bem guardadas, e sempre bem lembradas nos atos afetos a vida acadêmica, nos relatos do cotidiano, e na simplicidade de colher uma rosa sabendo que outra rosa em breve nascerá.


Pronunciamento de Guilherme Cunha, fundador da Academia Acreana de Filosofia em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.


UM BOM FRUTO AMAZÔNICO

A Amazônia pariu bons filhos, sua fauna e flora embelezam e encantam os que convivem no seu seio. Tudo é muito bonito, mas o que mais soma à beleza natural é a beleza das ações humanas que engrandecem o modo do Homem viver em sociedade.

No palco da beleza amazônica, especificamente no Estado do Amazonas, na ilha do Jacurutu, nasceu mais um fruto bom e belo, MARIA IVANILDA SOUZA DA SILVA, que aprendeu muito cedo a nadar nas águas caudalosas do majestoso Rio Solimões, comeu bastante peixe com farinha, como boa amazonense que é. Aprendeu a pescar com o velho Joaquim, homem de habilidade ímpar com o arpão na mão. Viveu na ilha do Jacurutu aproximadamente até seus 14 anos de idade. Logo depois, atraída pelo “boom” da Zona Franca de Manaus, veio viver e trabalhar no Parque Industrial de Manaus.

Cursou Filosofia na Universidade Federal do Amazonas, onde se destacou como excelente acadêmica, em seguida, veio morar em Sena Madureira, onde foi professora de Filosofia no Ensino Médio, desenvolveu vários projetos culturais pela Fundação Elias Mansour do Governo do Estado do Acre. Em 2003, inicia sua peregrinação pelo magistério superior, sendo professora de Filosofia da Universidade Federal do Acre, das faculdades Sinal, IESACRE e FERB. Em 2008, se efetiva como professora de Filosofia da Rede Estadual Pública de Educação e, em 2010, tornou-se professora de dedicação exclusiva do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre – Campus Rio Branco. Portanto, MARIA IVANILDA SOUZA DA SILVA, fundadora da Academia Acreana de Filosofia, faz jus à esta homenagem.


Pronunciamento de Maria Peregrina fundadora da Academia Acreana de Filosofia em 14 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Senhor presidente!

Senhoras e senhores presentes!

Uma saudação especial aos meus pares Imortais da Academia Acreana de Filosofia.

Existe vasta e folclórica literatura relacionada a Guilherme de Orange, e a Guilherme Tell. Reportar-me-ei ao Guilherme original, ao que eu conheço, ao meu conterrâneo de Sena Madureira. O amigo, o intelectual, o poeta, o professor Guilherme da Silva Cunha. A trajetória do filósofo provocador, irreverente e hábil na arte de educar inclina o mundo a uma nova divisão de tempo a.G. d.G.

Em contato breve e recente com as Eneadas de Plotino, especialmente a primeira que trata do homem e da moral, li que alguns valores individuais se tornam sociais tornando-se leis em seguida, e que não existe lei sem uma ética que lhe sirva de cunha. Cunha é o sobrenome do professor Guilherme, e, me faz lembrar um instrumento que serve para rachar lenha, fender pedras, vedar fendas, ajustar encaixes, e, principalmente dar firmeza ao cabo da ferramenta.

O Professor Guilherme em suas aulas tem dado demonstrações de verdadeiro amor e compromisso com a filosofia. Um homem de posições firmes calçadas pelo vasto repertório e cardápio argumentativo. Muitas vezes contestado, porém, compreendido pela eloquência e pela simplicidade com que se expressa.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Essas palavras de Nietzsche podem claramente ser ajustadas e acopladas ao parágrafo brevemente acima para reforçar um argumento ou corrigir uma expressão.
Quem conhece o Professor Guilherme sabe que lhe é merecido o devido respeito. Seus feitos, sua contribuição e lealdade com a filosofia e com os amigos são impagáveis. Sabemos que essa homenagem é justa, porém, não mensura o valor do mestre. É apenas uma forma da Academia Acreana de Filosofia dizer muito obrigada.

Pronunciamento de Glicério Gomes, fundador e presidente da Academia Acreana de Filosofia em 14 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Boa noite senhoras e senhores...

Aos aqui presentes os meus sinceros agradecimentos...

Alguns costumam dizer que os seres humanos aqui na Terra só são realmente conhecidos quando têm o poder na mão. Enquanto eles não o têm, a própria vida controla seus impulsos e suas reações. Mas dê-lhes o poder e assim se poderá medir se a criatura realmente está madura ou não.

Esta foi uma das primeiras lições que aprendi com o meu velho pai. Outras grandes e importantes lições aprendi no transcurso da vida. E as últimas grandiosas e igualmente importantes lições aprendi com o professor Assis.

Muito me honra estar aqui, esta noite, na condição de presidente da Academia Acreana de Filosofia. E especialmente por me dirigir ao homem responsável pela implantação da primeira instituição de ensino superior em filosofia no Acre.

Aquela não era uma tarefa qualquer. É a missão de um homem que tem sonhos, um sonho especialmente. O professor Assis, ao longo dos anos vêm concretizando o ideal de formar pensadores, o ideal de organizar de maneira sistemática, pedagógica e didática e em sequência todas as etapas e procedimentos, indo da escolha do estado, da cidade, ao discurso na entrega do diploma.

Sinto-me muito mais orgulhoso em poder presidir a sessão que homenageia uma grande expressão do trabalhador dedicado à árdua função de educar.

Do riquíssimo Patrimônio Cultural do Brasil faz parte esse grande homem.

Prezados senhores e senhoras, o amor pela filosofia e a responsabilidade de formar cidadãos desconhece fronteiras. A prova do que digo está na pessoa do próprio professor Assis, ora homenageado.

Nascer e adolescer correndo atrás de calangos entre as bibocas e baiúcas na terra de José de Alencar, foi pra ele uma diversão. Esperar a chuva de “Padim Ciço” lhe causou inquietação, combustível para o precoce filósofo arribar dali. Rodando pelo vasto rincão tupiniquim encontrou o caminho do Aquiri onde presta inestimáveis serviços à comunidade acreana. Tendo nos breves anos passados implantado, e hoje dirigindo a Faculdade de Teologia e Filosofia Sinal, o professor Francisco Assis Ferreira dos Santos escreve o seu nome na história.


Pronunciamento de Francisco Lopes, fundador da Academia Acreana de Filosofia, em 14 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Inicialmente, saúdo a Mesa na pessoa do dileto amigo Glicério Gomes, Presidente da Academia Acreana de Filosofia.
Agradeço ao querido amigo Antonio Gomes, por com sua presença dar um brilho especial a esta Sessão.

Agradeço ainda a presença de todos que se esforçaram para aqui estar nesta noite. Acredito estar aqui a fina flor, o néctar do pensamento acreano. Creio estar o genoma cromossômico germinativo do pensador do terceiro milênio presente nesta Sessão Solene.

O que nesse momento se presta ao Professor Manoel Coracy Saboia Dias seria de nossa parte atitude mesquinha e presunçosa imaginar que um homem de tamanha envergadura intelectual e moral, que finca os pés nesta terra e embasa de forma marcante a história da filosofia no Acre, seja do tamanho de uma homenagem, por melhor que seja a intenção.

Os grandes homens vultos da humanidade evidentemente não precisam disso. A satisfação que sentem está no resultado das obras que, de alguma forma, ajudam a edificar, independentemente de terem seus nomes lembrados ou não.
Ao professor Coracy esta singela homenagem é extremamente secundária e está muito aquém do valor e da marca estampada de sua presença entre nós.

Todavia, é imprescindível esse registro na Academia Acreana de Filosofia - tantas manifestações aconteceram e tantas homenagens foram prestadas - e tinha de ser no dia do filósofo, e não poderia ser em outra circunstância.

Não cabe aqui relatar fatos e atos da trajetória do Mestre, mas, enaltecer a sua missão.

O encontro com a filosofia precede imediatamente a tomada de consciência. O ser passa a existir e se torna humano. E foi sob a batuta do mestre que muitos tomaram consciência de si, e sob a mesma brevemente o momento em que uma parcela da humanidade, pela primeira vez, terá acesso, de maneira racional e organizada, a informações que explicitam o funcionamento do espírito humano descortinando respostas concretas e pragmáticas para o tripé essencial da filosofia humana: de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo aqui.





Pronunciamento do Professor João Azevedo em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Senho Presidente!

Senhoras e senhores presentes!

Nascido em Castelnovo Monti em 12 de novembro de 1934, iniciou sua vida escolar nas escolas elementares daquela cidade aos cinco anos de idade. Nos anos 1944 – 1945 teve suspensas suas atividades escolares por estar Castelnovo Monti, na condição de frente de batalha na segunda guerra mundial, tempos de fome miséria e morte. Nesse contexto conheceu a dor e a barbárie de ver sua Irmã de 17 anos, ser fuzilada dias depois do aniversário de sua mãe em 29 de junho de 1944. Terminada a guerra, Nilo Zannini participou (como toda criança naquela época) da reconstrução da cidade e voltou à escola.

Aos quatorze anos, 1947, no seminário maior da Diocese de Reggio Emília, ingressando no liceu clássico de Filosofia e Teologia, seminário maior, em 1953. Sete anos depois foi ungido sacerdote.
No mundo das artes nosso ilustre Nilo participou como figurante em diversos filmes dirigidos por Dino De Laurentis e no filme do autor Francês Fernadel, onde fez, entre outros, papel de Gladiador.

Sua vida como dirigente acadêmico iniciou em 1962, ao ser nomeado Reitor da igreja N.S. Im Coelim Assumpta de Succiso, chegando a Salvador, Brasil, em 18 de novembro de 1965.

Na Bahia, logo encontrou seu caminho acadêmico lecionado educação artística no ginásio da Fraternidade de Irecê. Por ironia do destino, ou vontade própria, aterrissou no dia 24 de abril em 1968 (em um DC3) em Rio Branco no Acre onde permanece até hoje. Durante 12 anos dirigiu a colônia Souza Araújo na intenção de humanizar e amenizar o isolamento e discriminação do povo Hanseniano.

As perseguições políticas não o impediram de lecionou durante 40 anos História, Português, Francês e Educação Artística nas escolas públicas do Estado do Acre. Mesmo aprovado em primeiro e segundo lugares nos concursos daquela época, foi impedido pela censura do regime militar de lecionar filosofia na Universidade Federal do Acre, por mais de trinta anos.

Depois de alguns anos, teve seu contrato autorizado, passando a atuar naquela instituição como professor substituto de Latim, Filologia Românica, Grego e Italiano, vindo a aposentar-se com varias publicações na gráfica da UFAC.

Mesmo depois da aposentadoria, nosso estimado, sábio mestre, não se deu ao luxo do descanso, como o grande articulador que sempre foi, conseguiu a voluntariedade de velhos amigos, o que possibilitou a efetiva fundação da Faculdade Diocesana São José, onde atua a mais de dez anos na tarefa de tornar o Acre um dos mais jovens espaços brasileiros na formação filosófica.

Nillo Zannini, nosso memorável mestre que não se cansa da tarefa de ensinar, neste momento solene a Academia Acreana de filosofia tem a hora de reconhecê-lo como pilastra central da formação acadêmica no campo da Filosofia deste Estado, zelando por sua imortalidade intelectual e eternizando o bom nome de sua família pelo transcurso da eternidade desta Academia. Receba com nosso carinho e apreço, essa singela homenagem como reconhecimento de seus relevantes serviços prestados à formação do pensamento filosófico acreano, com louvor e votos de que te conduzas oh grande Gladiador dos campos do saber filosófico, pela eternidade dos tempos.



Discurso do Professor Nilo Zannini, ao se tornar Imortal da Academia Acreana de Filosofia, em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Boa noite!

Compartilho com todos, a felicidade e a alegria desse momento.

A amizade com a filosofia consolidou-se ao longo da existência com as peripécias da vida, por longos anos fomos calados, com medo, que o nosso raciocínio junto ao povo, se transformasse em ideias libertadoras. Por trinta anos a minha licenciatura em filosofia dedicou-se ao ensino de educação artística, mas nesta noite, quero compartilhar com Vossas Senhorias o prazer de rever as origens do “LOGUS” na antiga e sempre sofrida Civilização do parto Helênica Logus meio.

Depois homérico das duas grandes obras Ilíada e Odisséia, no Século VII aparece Hesíodo, o transformador da poesia épica para lírica, usando um raciocínio mais real que levasse o povo, na declamação dos versos à raciocinar.


HESÍODO

“Primeiro que tudo houve o Caos, e depois a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e, no peito de todos os homens e deuses, domina o espírito e a vontade esclarecida.


Do Caos nasceu o erebro e a negra Noite, por sua vez, o Éter e o Dia.


A terra gerou o Céu constelado, com o seu tamanho, para que a cobrisse por todo e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados. Gerou “ainda as altas Montanhas morada aprazível das deusas Ninfas que habitam os montes cercados de vales”.

Hesíodo em sua poesia, fala da vida agrícola, da vida real, transformando assim a poesia épica homérica numa poesia menos triunfalista e mais perto da realidade da vida.


Segundo Pausânia no vale das Musas da Beócia, se reconhecia como autênticas somente “Os trabalhos e os dias”. São os versos 582 a 596 desse poema que passamos a tradução:


VERÃO - Quando floresce o cardo e, na árvore a cigarra verte de sob as asas doce canto estrídulo, no tempo em que o verão é fatigante, mais gordas veem-se as cabras e melhor o vinho, mais sensuais as mulheres, débeis os varões: - Sírus lhes queima a fronte e os joelhos, e o calor lhes seca a pele. Oh, possa eu ter, nessa ocasião, a sombra de uma rocha, vinho bíblino, pão e leite de cabras que já desmamaram, e carne de novilha que pastou no bosque e ainda não deu cria, ou, caso falte, de cordeirinho do primeiro parto. E possa eu, para beber o vinho negro à sombra me estender, de coração feliz com o meu banquete, e, dando o rosto ao vento oeste, junto à fonte perpétua, viva e imperturbada, mesclar três partes de água e uma de vinho.


ARQUILOCO

COM A LANÇA - Com a lança eu alcanço meu pão de cevada; com a minha lança eu consigo o meu vinho ismárico na lança apoiado eu bebo este vinho.


SOMBRAS - Com um ramo de mirto e uma bela rosa ela brincava; e os cabelos lhe caíam pelos ombros e pelas costas, como sombras...


A GRANDE ARTE - Tenho uma grande arte: eu firo duramente aqueles que me ferem.


SAFFO

LUA CHEIA - As estrelas ao redor da bela lua, longe o brilho escondem quando, mais plena de fulgor, ela se entorna pela terra toda.


O VENTO - O Amor sacode meu coração, tal o vento caindo sobre os carvalhos das montanhas.

ALÍVIO - Chegaste, quanto, eu, amada, com ânsia te desejava, destes alívio à minha alma em chamas pelo desejo.


ESTRELA DA TARDE - Estrela da tarde, tu que reconduz quanto a aurora luminosa tinha perdido.


ROUXINOL - Rouxinol amável, doce voz, mensageiro da primavera.


ALCEU


ESPELHO - O Vinho é o espelho do homem.


O LOUCO - Um turbilhão rapiu-lhe completamente a mente.


MÁXIMA - Se falas o que queres ouvirás também o que não queres.

SIMONIDES

AOS QUE MORREM NAS TERMÓPILAS - Dos que morrem nas Termópilas ilustre foi a sina, bela a morte; seu jazigo é um altar onde as lembranças são as librações e os louvores o vinho derramado.


Sobre esta pedra não terá poder o musgo nem mesmo o tempo que domina tudo: na tumba dos heróis habita agora o resplendor da Grécia.


Atesta-o Leônidas, ó rei de Esparta; do qual bravura e glória eternamente brilham.


Mais uma vez muito obrigado por este momento, felicidade e vida longa a todos.




Pronunciamento de Francisco Lopes, fundador da Academia Acreana de Filosofia, em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.


Senhor Presidente!

Senhoras e senhores, obrigado por vossas presenças.

Depois da performance do Professor Nilo, creio que o silêncio seja o melhor discurso.

Mas me pronunciarei a respeito do Doutor João Azevedo do Nascimento.

Me sinto honrado em pertencer a Academia Acreana de Filosofia, e compartilho com os demais acadêmicos o júbilo de ter o Dr. João como imortal.

O João é uma dessas pessoas que justifica a danosa presença e a demorada permanência do ser humano na terra. Por ser quem é e por agir como age, absolve a humanidade da demência, libertando-a do julgo nefasto-mitológico.

A atuação do João dentro da Academia Acreana de Filosofia nesse breve tempo tem demonstrado seu comprometimento com a causa coletiva, especificamente a causa do outro, na forma intransigente de defender a liberdade e no método prático de organização, porém, sem ocultar o lado humano o que nos leva a lembrar a reflexão de Antoaine Saint-Exupéry “Para que haja uma árvore florida, é preciso haver antes uma árvore; e, para haver um homem feliz, é preciso haver em primeiro lugar um homem”.

Tenho observado a forma dedicada do João Azevedo exercer seu ofício de professor, a seriedade com que aborda os assuntos correlatos ao cotidiano e ao ambiente em que vive.


Impressiona a forma solidária como trata os amigos e impressiona infinitamente mais a forma como é tratado pelos amigos. É também impressionante a liderança exercida, a segurança e a confiança transmitidas.


“Se ao escalar uma montanha na direção de uma estrela, o viajante se deixa absorver demasiado pelos problemas da escalada, arrisca-se a esquecer qual é a estrela que o guia”. Se nessa segunda reflexão de Saint-Exupéry o professor João fosse a estrela-guia, talvez ela brilhasse mais forte ou desse uma piscadela para reconduzir o viajante a direção certa.




Pronunciamento do Professor João Azevedo em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.


Agradeço imensamente ao Criador por nos permitir esse momento.

Nascido no dia 22 de setembro de 1952 na cidade de Monachil, Granada na Espanha, esse ilustre bispo da Diocese de Rio Branco, mostrou desde muito cedo ter talento para ser um homem das letras. Formado na Escola Normal de Granada, conseguiu seu primeiro Titulo de Maestro de Primeira enseñanza, depois de sua emissão na carreira sacerdotal em 11 de agosto de 1974. Foi durante onze anos vice-prefeito e depois prefeito no Seminário São José, de sua ordem, em Ladosa. No final dos anos oitenta veio para Lábrea, Amazonas, onde atuou como vice-pároco e fundou o “Centro Esperança.” que ajudava crianças carentes.


Após dez anos de trabalho pastoral em Lábrea foi convidado no dia 30 de março de 1998 a exercer o cargo de Delegado Provincial para a América Central, com sede em Cartago, Costa Rica. De volta ao Brasil foi ordenado Bispo da Diocese de Rio Branco em 30 de maio de 1999.

Na Qualidade de Sacerdote maior da Diocese de Rio Branco, uma de suas primeiras ações foi criar a Faculdade Diocesana São José-FADISI, na qual implantou o primeiro curso de Filosofia do Estado do Acre. Com esta atitude nosso iluminado Bispo, deu à comunidade acreana a oportunidade de ter em seu seio, a primeira instituição de ensino voltada à formação de formadores de opinião.


Dado ao fato de que no momento de sua chegada ao Acre o curso de Filosofia estava, sob o censura do regime militar, a mais de trinta anos impedido de ser ministrado em escolas públicas ou particulares deste País, fazia-se presente a necessidade de um curso de tal envergadura em qualquer Estado brasileiro naqueles dias. A feliz ideia de criar a FADISI com um curso de tal envergadura veio possibilitar aos acreanos provar que, no Acre há uma escola direcionada a arte do bem pensar e, consequentemente, hoje o Estado do Acre é, também, um estado de “pensadores”.

Nesses poucos anos de existência da Faculdade Diocesana São Jose, escola idealizada por esse celebre Bispo, a FADISI já formou, entre seus cursos de graduação e pós-graduação mais de setenta pessoas, provando a carência do referido curso e a vontade dos membros da comunidade acreana em inserir-se definitivamente no mundo filosófico-intelectual.

Diante do exposto, muito nos honra dizer ao nosso Bispo Don Joaquím Pertiñez Fernández, o quanto estimamos tê-lo conosco, seja na qualidade de Bispo seja na qualidade de intelectual e mestre formador dos futuros pilares desta sociedade.

Memorável Don Joaquím, neste momento solene, a Academia Acreana de Filosofia faz questão de reconhecer sua importância no universo filosófico- acadêmico do Acre fazendo-lhe esta singela homenagem, ao mesmo tempo em que se compromete, com a ajuda de Deus e dos homens, a torná-lo tão imortal quanto eterno for a existência desta academia.

Dizemos ainda, com este pequeno gesto, esta academia passa a ser tão sua quanto o senhor é o emérito fundador da FADISI, pois sem o primeiro curso de Filosofia do Acre, não teria sido possível a existência da Academia Acreana de Filosofia. Assim, damos ciência à comunidade acreana que, de maneira indireta, o Senhor também é fundador desta academia. Ditas as verdades necessárias, rogamos a Deus que continue iluminando seus caminhos na missão de dirigente religioso e formador acadêmico de nosso Estado e, consequentemente, do Brasil por muitos e muitos anos, Amém.





Discurso do Bispo Dom Joaquim ao se tornar Imortal da Academia Acreana de Filosofia, em 23 de agosto de 2010 por ocasião da Sessão Solene alusiva ao dia do filósofo.

Boa noite e obrigado a todos.

Me sinto feliz, lisonjeado e agradecido.

Também surpreso pelo surgimento da Academia Acreana de Filosofia. Acredito e torço para que daqui surja um ou mais nomes de expressão mundial.

A RAZÃO À PROCURA DA FÉ

“Não procures fora! Volta-te para ti mesmo! No interior do homem é que habita a verdade. E se achares que também a tua própria natureza é mutável, então transcende-te a ti mesmo” (De vera rei. Cap. 39, nº 72).

Segundo a mentalidade agostiniana, filosofia e teologia andam sempre juntas, e assim se compreende porque interessam à filosofia as obras teológicas e religiosas de Santo Agostinho e vice-versa.


Santo Agostinho após seu batismo aos trinta e três anos de idade, desistiu de seu cargo de professor de retórica em Milão, e voltou a Tagaste na África, onde fundou uma comunidade monástica, disposto a fundamentar racionalmente a fé.

Uma vez batizado, e depois de sua experiência com Cristo, uma luz inundou seu coração, e sua alma encontrou a paz. Até esse momento tinha sido “O homem do coração inquieto”.

Seu anseio por encontrar a verdade absoluta, o levou a mostrar que, sem a fé, a razão não é capaz de levar à felicidade. A razão, para Agostinho, serve de auxílio à fé, esclarecendo e tornando inteligível aquilo que intuímos. Ele tinha tomado contato com o pensamento neoplatônico onde a natureza humana contém parte da essência divina. E demonstrou a partir daí, que há limites para a racionalidade. Por isso, os filósofos devem entender que para compreender a filosofia de Santo Agostinho hão de levar-se em conta os conceitos agostinianos de fé e razão e o modo de como ele se serve deles.


Com efeito, não pode considerar-se Agostinho de Hipona um filósofo, se por tal se entende o pensador que se situa no âmbito exclusivamente racional, pois, como homem de fé que ele é, apela sempre à fé.

Santo Agostinho não se preocupa em traçar fronteiras entre a fé e a razão. Para ele, o processo do conhecimento é o seguinte: a razão ajuda o homem a alcançar a fé; de seguida a fé orienta e ilumina a razão; e esta, por sua vez contribui para esclarecer os conteúdos da fé.

Deste modo, não traça fronteiras entre os conteúdos da revelação cristã e as verdades acessíveis ao pensamento racional. Para Santo Agostinho, “o homem é uma alma racional que se serve de um corpo mortal e terrestre”.

Ele distingue, na alma, dois aspectos: a razão inferior e razão superior. A razão inferior tem por objetivo o conhecimento da realidade sensível e mutável: é a ciência, o conhecimento que permite cobrir as nossas necessidades. A razão superior tem por objeto a sabedoria, o conhecimento das ideias, do inteligível, para se elevar até Deus. Nesta razão superior dá-se a iluminação de Deus.

A Cidade de Deus, que possivelmente seja uma das mais estudadas na filosofia, teve uma grande influência na sociedade e no mundo da Idade Média e, ainda hoje, não perdeu sua atualidade, no nosso mundo moderno.

Santo Agostinho, nessa sua obra tão ponderada, adota a postura de um filósofo da história universal em busca de um sentido unitário e profundo da história.

A sua atitude é, sobretudo, moral: há dois tipos de homens, os que se amam a sí mesmos até o desprezo de Deus (estes são a cidade terrena) e os que amam a Deus até ao desprezo de si mesmos (esses são a cidade de Deus).

A cidade da terra poderá talvez construir-se sobre uma determinada ordem humana, poderá ostentar uma majestosa organização, levar a cabo muitas realizações, mas se por essência se confina nos bens desta terra e já os goza, em vez de unicamente servir-se deles, para um fim ulterior mais alto, superior à concupiscência humana, para um fim que é Deus, então é só desta terra e, no fundo, é pura desordem e o seu valor é na verdade apenas aparente.

A Cidade de Deus ao contrário, consta de homens adaptados à eterna ordem de Deus. Eles não se entregam às coisas externas, para gozar delas ou de si mesmos, mas vivem em Deus e de Deus, uma ordem ideal, que dá ao mundo e ao homem a paz e o descanso sabático de Deus.

Por isso, Santo Agostinho, chegado ao fim de sua vida, começa sua grande obra “As Confissões”, com a seguinte afirmação e anseio, que defino toda a sua vida filosófica e teológica: “És grande, Senhor, e incomensurável tua sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te, e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do passado e a prova de que resistes aos soberbos. Todavia, o homem, partícula de tua criação, deseja louvar-te. Tu mesmo o incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”.


Meus sinceros agradecimentos.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fabricação de Mitos em Série

COMO SURGIU O NATAL

Por Zé da Cuia

Não sou nem pretendo ser o dono nem almejo o controle da verdade, todavia, não me conformo com a deformação dela, para melhor servir a interesses comerciais, ideológicos ou de qualquer outra natureza.

A dominante elite católica romana definiu o dia 25 de dezembro como a data do nascimento de Cristo, escolhendo essa data para comemorar o Natal; é desconhecida a data exata do nascimento de Cristo, mas, com absoluta certeza não foi em dezembro, muito menos no dia 25. A estrela Vésper que segundo a lenda teria guiado os Reis Magos não estava posicionada no céu, daquela maneira, naquela data. Aí o questionamento básico: Por que a escolha desta data? A razão é lógica, simples, e, estrategicamente baseada na metáfora “Quando não se pode com o inimigo alia-se a ele”. Numa situação desfavorável diante de um inimigo, ou nos unimos a ele, ou o absorvemos. Os teologistas alicerçantes do cristianismo, tiveram uma grande luta para impô-lo a agrupamentos civilizatórios que tinham suas próprias crenças, seus próprios costumes arraigados e faziam suas próprias festas; então, o macro empreendimento católico resolveu cristianizar as festas pagãs, como por exemplo, a do Solstício do Inverno, quando se festejava o nascimento do Deus-Sol Invencível (natalis invistis solis) e do deus persa Mitra, o Sol da Virtude. Os romanos celebravam as Saturnalias, dedicadas ao deus Saturno, quando se dançava e cantava nas vias com alegria contagiante e se trocavam presentes. Estes festejos iam de 17 a 22 de dezembro. Impossível não notar semelhança com o Natal (natividade) cristão instituído pelo papa Libério em 354.

Essencialmente o “Espírito Natalino” prega a alegria, a união, a aproximação, a reaproximação e o fortalecimento dos laços fraternos, num distorcimento da ideologia política proposta pelo Velho Jesus, e, da proposta mercantilista do Jesus contemporâneo.

Atualmente o Natal é apenas uma explosão comercial, e a institucionalização do 13º salário dos picaretas que falam em nome de um homem morto jazidos 2000 anos, massacrando e explorando a boa fé do povo ignorante.

“Cristãos de todos os paises, libertai-vos”

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ECO
Por Zé da Cuia

O conceito de inconsciente coletivo é sem dúvida o que de forma profunda une Jung à Mitologia. Os anos de estudo de mitologia o levaram ao conceito e ao seu principal conteúdo. O arquétipo. Jung debruçou-se sobre uma vastidão de materiais mitológicos e gnósticos, chegando a uma desorientação total. Desesperava-se quando tentava compreender o sentido dos psicóticos na clínica. Sentiu-se muitas vezes num asilo de alienados imaginários e começou o "tratamento" de analisar todos os deuses, ninfas, centauros..., do livro de Creuzer, como se fossem seus pacientes.
A maioria das noites como relata o próprio Jung em Memórias, Sonhos e Reflexões esteve mergulhado na história dos símbolos, i.e., na mitologia e na arqueologia onde se encontram fontes valiosas para a fundamentação filogenética da teoria da neurose...

Partindo Jung do estudo de Mitologia Comparada, de Religião Comparada, sendo mitos e religiões vistos como expressões espontâneas da psique humana, da observação de pacientes psicóticos, olhando para seus próprios sonhos (expressão do inconsciente) e sonhos de seus pacientes "normais", conclui que as imagens produzidas espontaneamente pela psique em sonhos, fantasias e mitos, são semelhantes em sua forma e estruturação e a partir daí postula a existência de uma camada psíquica igual a todos os homens, capaz de gerar imagens semelhantes, imagens típicas de seres humanos. Jung trabalhou em hospital psiquiátrico durante nove anos e o paciente psiquiátrico se caracteriza pela substituição do mundo da realidade pelo do inconsciente.

"Nossas opiniões, pensamentos e convicções são produtos de uma camada psíquica na qual se produzem os mitos. Esse estrato criador de mitos funciona como nossos sonhos........As imagens produzidas pela psique podem ser altamente pessoais, mas o drama em nosso palco interior costuma ser uma encenação do drama humano geral. Os artistas e os sábios sempre souberam disso. Nossos problemas particulares - nascimento, morte, relacionamentos, conflitos e a busca de significado - são problemas humanos. Quem estiver passando por um deles tem chance de perceber que essa experiência é uma versão de imagens grandiosas que simbolizam o modo como a humanidade sempre vivenciou esse problema. Jung chamou de arquétipos essas imagens atemporais. São dinamismos que fornecem padrões de comportamento, de emoção e de experiências pessoais que transcendem a história pessoal.......Pode-se considerar os mitos como sonhos coletivos e recorrentes da humanidade."

Essa ligação imensa entre a Psicologia Analítica e a Mitologia permite traçar um paralelo entre a personalidade mítica de Eco e alguns conceitos básicos de Jung; permite-nos olhar para a dinâmica do mito através de um olhar junguiano que naturalmente tende a dar espaço ao mito e ver a necessidade de compreendermos o mito até para que nos conheçamos.

Quanto ao mito, este refaz a história das origens, história sagrada. Se das origens, universal. Quanto mais primitivo, mais de todos. Já vimos alguma ou muitas vezes nossa imagem refletida nalguma superfície lisa algum dia e ficamos perturbados. Surge o questionamento quanto aos contornos refletidos: esses contornos são os nossos? Vemos outro ou vemos a nós mesmos? Por isso Narciso nos interessa, por isso é que ele é histórico.

Poderíamos dizer o mesmo de ECO... Quem não viveu um amor impossível? Um amor tão centrado no outro que justo por isso não pode ser amor? Quem não apenas ecoou palavras? Ficando sem identidade, ficando sem fala! Podemos dizer que Eco nos interessa que é historicamente psicológica.

O meio natural de chegarmos ao mito de ECO é através do mito de Narciso, que foi o seu grande amor. Há alguns autores junguianos que se dispuseram a falar sobre o mito de Narciso e Eco, entre eles: Murray Stein, Patricia Berry, Junito de Souza Brandão, Donaldo Schuler e Nathan Schwartz Salant. Como suporte dentro da Mitologia Grega e ensaios, em se tratando de Narciso e Eco, não poderia deixar de lado: Ovídio em "As Metamorfoses".

A versão mais completa de Narciso é a narração de Ovídio.

O mito de Narciso vem da antiguidade em muitas variações. A principal, e a mais detalhada, aparece nas Metamorfoses de Ovídio. Porém, em qualquer forma que apareça, esta é uma estória cujo principal tema é o amor e a paixão frustrada. Pertence às estórias de Eros, como uma das complicações dentro das complexidades do amor erótico."


* Narciso, Eco (por Ovídio):
Tirésias, cuja grande fama se espalhara pelas cidades da Aônia, dava respostas infalíveis às pessoas que o consultavam. A primeira a experimentar a veracidade de suas palavras foi a cerúlea Liriope, que outrora o Cefiso enlaçara nas curvas de seu curso, e, uma vez presa, a violentara. Belíssima, engravidou-se e deu à luz um filho, já então digno de ser amado pelas ninfas, a quem chamou Narciso. Consultando a seu respeito, se o menino viveria muito, se teria uma velhice prolongada, o adivinho respondeu: "Se não se conhecer". Por muito tempo as palavras do áugure pareceram destituídas de sentido. Mostraram seu acerto a maneira com que se desenrolaram os acontecimentos, o modo como morreu Narciso e a estranheza de sua loucura. O filho de Cefiso tinha, então, dezesseis anos, e podia ser tomado tanto por um menino como por um moço. Muitos jovens e muitas jovens o desejam, mas - tanta tão rude soberba acompanhava suas formas delicadas nenhum jovem, nenhuma jovem o tocara. Quando olhava os trêmulos veados apanhados nas redes, a ninfa de voz sonora, que não responde pelo silêncio a quem lhe fala, e nem fala em primeiro lugar, a ressonante Eco, o viu. Eco tinha, então, um corpo, não era voz apenas; no entanto, já era loquaz e usava da boca, como ainda hoje, para repetir a última de muitas palavras, como faz agora. Juno foi a causadora, pois, quando tinha oportunidade, muitas vezes, de surpreender ninfas deitadas na montanha com seu Júpiter, a esperta Eco a detinha, conversando muito, enquanto as ninfas fugiam. Percebendo tal coisa, disse a filha de Saturno: "Com essa língua, que tanto me fez ser iludida, pouco poderás fazer e terás um uso brevíssimo das palavras.” E executa a ameaça: quando alguém acaba de falar, Eco só pode repetir o que ouviu. Então, quando ela viu Narciso andando sem destino pelos campos, e se apaixonou, seguiu-lhe os passos furtivamente; quanto mais o segue, mais se aquece ao calor da chama, do mesmo modo que o inflamável enxofre, com que se reveste a extremidade das tochas, se queima ao aproximar-se do fogo. Quantas vezes ela quis aproximar-se, com palavras carinhosas, e dirigir-lhe ternas súplicas! Sua natureza a impede de falar em primeiro lugar. Permite-lhe, porém, e ela se dispõe a isso, esperar os sons e devolver-lhe as próprias palavras.

Por acaso, o adolescente, separado do grupo fiel de seus companheiros, perguntara: "Aqui não há alguém?" "Há alguém", respondera Eco. Ele se admira, e olha em torno. "Vem!", grita muito alto; Eco repete o convite. Ele olha para trás, e, não vendo ninguém aproximar-se, pergunta: "Por que foges de mim?" E ouve as mesmas palavras que dissera. Insiste, e, iludido pela voz que responde à sua, convida: "Vem para junto de mim, unamos-nos!" A nada Eco respondera com mais boa vontade: "Unamos-nos!" Ajunta o gesto à palavra e, saindo da floresta, avança para abraçar o desejado. Ele foge, e diz, ao fugir: "Afasta-te de mim, nada de abraços! Prefiro morrer, não me entrego a ti!" Eco repetiu somente: "Me entrego a ti!"

Desdenhada, esconde-se na floresta e protege com flores o rosto corado de vergonha, e, desde então, vive naquelas grutas isoladas. Seu amor, no entanto, é perseverante, e cresce com a amargura da recusa. As preocupações incansáveis consomem seu pobre corpo, a magreza lhe encolhe a pele, a própria essência do corpo se evapora no ar. Sobrevivem, no entanto, a voz e os ossos. A voz persiste; os ossos, dizem, assumiram o aspecto de pedra. Assim, ela se esconde nas florestas, e não é vista nas montanhas. É ouvida por todos; é o som que ainda vive nela.
Assim Narciso decepcionara Eco e outras ninfas nascidas nas águas e nos montes, e, antes delas, outros jovens. Despeitado, um deles ergueu as mãos para o céu, exclamando: "Que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado!" disse. A deusa de Ramnonte atendeu a essa justa prece.

Havia uma fonte de água muito pura, brilhante e prateada, da qual jamais haviam se aproximado os pastores nem as cabras que pastavam na montanha, nem qualquer outro gado, que jamais fora perturbada por qualquer ave, por qualquer animal selvagem, por qualquer ramo caído de uma árvore. Era rodeada pela grama, que chegava até junto da água, e a floresta impedia que o sol esquentasse o lugar. Ali, o adolescente, cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, atraído pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde. Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se! Não sabe o que vê; mas o que vê o inflama, e o mesmo erro que ilude seus olhos lhe excita o desejo. Crédulo, o que consegues com esses vãos esforços? Não existe o que procuras. Afasta-te do que amas, e o verás desaparecer. Essa sombra que vês é o reflexo de tua imagem. Nada é por si mesma. Contigo, ela aparece e permanece; com tua partida desaparecerá, se tiveres a coragem de partires.

Nem os cuidados com a alimentação nem com o repouso, todavia, podem afastá-lo dali; estendido.

Na espessa relva, contempla, insaciável, a imagem mentirosa, e perde-se devido aos próprios olhos.

Erguendo-se um pouco, estende os braços para a floresta que o cerca. "Alguém, ó floresta, sentiu mais cruelmente o amor?", pergunta. “Vós os sabeis e, para muitos, fostes um oportuno refúgio”. Vós, cuja existência atravessou tantos séculos, lembrais, durante todo esse longo tempo, de alguém que tenha sofrido assim? Estou apaixonado, e vejo, mas não posso alcançar o que vejo e me seduz; a tal ponto erro como amante. E, para agravo de minha dor, não nos separa nem o mar imenso, nem a distância, nem montanhas, nem muralhas com portas fechadas, mas uma simples camada de água. Ele próprio aspira a ser possuído, pois cada vez que beijamos a água cristalina, ele procura atingir com a sua a minha boca. Dir-se-ia que podes tocá-la, tão pequeno é o obstáculo que nos impede de amarmos-nos. Seja quem fores, vem! Por que me enganas, jovem sem-par? Aonde vais quando te procuro? Certamente, não tenho uma aparência ou uma idade para te fazer fugir. As ninfas também me amaram. Em teu rosto amigo promete-mes não sei qual esperança, e quando te estendo os braços , estendes, por tua vez, os teus; quando sorrio, sorris; também muitas vezes vi correrem lágrimas dos teus olhos quando eu chorava; a uma inclinação de cabeça, respondias da mesma maneira; e, tanto quanto posso adivinhar pelos movimentos de tua linda boca, dizes-me palavras que não chegam aos meus ouvidos. Somos o mesmo! Não me iludo mais com a minha imagem. É por mim que ardo de paixão e sinto e ateio ao mesmo tempo esse fogo. Que fazer? Ser rogado ou rogar? E o que, de agora em diante, poderei rogar? O que desejo está comigo; a riqueza me faz pobre. Oh! Se eu pudesse separar-me do meu próprio corpo! Desejo desusado em um amante queria estar separado do que amo! E já o sofrimento abate o meu vigor, não me resta muito mais tempo a viver e me extingo na flor da idade. A morte não me assusta, pois com a morte aliviarei o sofrimento. Para aquele que amo desejaria vivesse mais. Agora, exalaremos juntos o último suspiro."

Disse, e, com a razão perturbada, voltou à mesma contemplação. As lágrimas turvaram as águas e, no lago agitado, a imagem se tornou indistinta. E, ao vê-la desfazer-se, ele gritou: "Para onde foges? Fica, não me abandones, cruel, eu que te amo! Que me seja permitido olhar o que não posso tocar e alimentar a minha triste loucura". Enquanto se lamenta, abre as vestes, desde o alto, e esmurra o peito nu com as mãos esculturais. Com as pancadas, o peito se tinge de vermelho, como acontece com as frutas, que, alvas em parte, em parte enrubescem, ou como, nos cachos variegados, a uva, ainda verde, se colore de púrpura. Quando o viu, na água cristalina de novo, não pôde suportar por mais tempo, mas, como costumam se derreter a loura cera ao leve calor do fogo ou o orvalho matinal ao morno sol, assim, esgotado pelo amor, ele definha, e um fogo secreto o consome, pouco a pouco. Agora, sua cútis já não oferece a alvura misturada ao rubor; nem restam o vigor e o ânimo que seduziam os seus olhos; nada resta do corpo que outrora Eco havia amado. Essa, ao ver tal coisa, embora ainda ressentida com o agravo, apiedou-se, e todas as vezes que o infortunado adolescente exclamava "Ai!", ela repetia "Ai!" Quando as mãos lhe esmurram os braços, ela repetiu com sua voz o ruído das pancadas. Foram as últimas palavras de Narciso com os olhos postos naquela água já tão conhecida: "Ah, querido em vão!", e o local devolve todas as palavras. E dizendo "Adeus!", responde Eco "Adeus!" Ele repousa na verde relva a cabeça fatigada, e a noite fechou-lhe os olhos cheios de admiração pelo dono. E mesmo depois de ter sido recebido no inferno, ainda se olhava na água do Estige. As náiades, suas irmãs, choraram em altas vozes e depositaram os seus cabelos no túmulo do irmão; choraram as dríades; Eco repete os seus lamentos, e elas já preparavam a pira, as tochas e o féretro. Em lugar do corpo, acharam uma flor dourada, rodeada de folhas brancas.